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Margareth Arilha: Eleições generosas (2)

October 17, 2018

Um pouco antes do primeiro turno dessas eleições, analisei a situação de transformação social, cultural e consequentemente econômica e política da posição das mulheres no cenário nacional. Hoje, ao nos aproximarmos do 2º turno dessa tão penosa campanha eleitoral, fui demandada a discorrer sobre o fenômeno que circunda a população masculina, tão afeita ao voto bolsonariano. Pesquisa Ibope de 15/10 registrou que 64% das intenções de votos ao candidato Jair são da população masculina e apenas 36% são de mulheres.

 

Em contraponto a um cenário em que mulheres, especialmente as jovens, buscam incrementar, aprofundar sua capacidade de pensar, escolher, decidir, refletir e agir com autonomia, chama atenção como o voto dos homens, de todas as idades, se rejubila na força daquele que parece ser a proteção, aquele que revigora padrões antigos discursivos de dominação e violência. Uma verdadeira “volta ao passado”. Não há dúvidas de que o candidato se apresenta no campo do imaginário da grande maioria da população, especialmente entre os homens, como a expressão máxima da disciplina, da ordem, do rigor, da disciplina moral, da voz dura, do comando, “capitão”. Do branqueamento e da limpeza.

 

Fenômenos de massas de tal natureza foram extensamente estudados e é o conhecimento psicanalítico que nos permite dizer que a imagem orientadora desejada agora é a de um pai disciplinador, o pai duro, que controla famílias como no passado, com uma economia do passado, um mercado como o do passado. Que não aceita a singularidade dos sujeitos e de suas culturas.


A questão é: podemos pensar que as mudanças que vimos, inclusive entre os homens, aparentemente mais tolerantes e liberais, teriam sido nada mais do que um processo de recalque das tensões e conflitos com as novas subjetividades em curso? Com resistências a mudanças? As sociedades começam a estar em lugares perigosos quando perdem a esperança, quando projetam o mal em outros indivíduos, grupos ou castas, ou países. O mal está fora de mim, e portanto, o Outro, aquele Outro deve ser exterminado. Campo fértil para politicas totalitárias.

 

O mundo mudou, a economia mudou, as práticas afetivas mudaram e, quando a política de maior centralidade de um candidato passa a ser a de “acabar”, “acabar com o ativismo, por exemplo, o alerta vermelho, (ops) o alerta verde azul amarelo abóbora roxo ressoa… De fato é assustador a rapidez com que os processos de violência e agressividades têm sido registrados novamente. Chama atenção a morte de 4 mulheres em 3 dias por violência direta. Por homens parceiros ou ex-parceiros. Lamentavelmente a compulsão à repetição existe: a máscara de senhor que lida com escravos subordinados renasce e volta a crescer como limo num pátio antigo. No entanto, vale apena ressaltar que todo o processo de mudança sempre apresenta resistências e mudanças. Mesmo que quiséssemos, não seríamos mais os mesmos. Mesmo que quiserem, não poderão chegar aonde desejam. Felizmente.

 

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp.

 

Acesse: JJ/Principal/Opnião/Margareth Arilha: Eleições generosas (2).

 

 

 

 

 

 

 

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