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Margareth Arilha: Mulheres que viram cinzas

September 7, 2018

De tudo sobra um pouco. Nossas cinzas um dia sobrarão de nós mesmos, é verdade. Nós todos e todas, como o Museu Nacional, vamos um dia morrer, desaparecer. No entanto, algumas mortes prematuras deveriam ser evitadas. Acredito que esse poderia ter sido o caso. As informações que começam a circular pelo mundo dão conta de um cenário que choca. As imagens, vergonhosamente, evidenciam a falta de cuidado que o Brasil tem com sua história. Alertam para a falta de cuidado que temos com a coisa pública. Uma vez mais…

 

De todas as histórias que têm circulado, duas me chamaram atenção e me puseram a pensar. Sobre duas mulheres. Uma delas, Sarcófago da Dama Sha-Amun-Em-Su, caixão de uma egípcia que viveu entre os séculos 9 a.C e 8 a.C., e que foi presenteado ao imperador Dom Pedro 2º, quando ele visitou o Egito em 1876. Nunca imaginei que isso tivesse ocorrido, digo, a visita. Mais curioso ainda foi o presente recebido, ou seja, o caixão de uma cantora do santuário do deus Amun, na antiga cidade de Tebas.

 

Quem teria sido a Dama Sha? Por que teria sido esse o sarcófago escolhido? Como seriam vistas as mulheres cantoras dos santuários naquela época?  De fato, já visitei o Egito algumas vezes, mas nunca havia ouvido falar das mulheres cantoras de templos. Teriam sabido as autoridades valorizar, sem estigmatizar, as mulheres que cantavam, no século 19, mas não dentro das Óperas de Viena, por exemplo?

 

A outra mulher é Luzia. Um esqueleto humano, o mais antigo do Brasil e um dos mais antigos do continente americano, com 12 mil anos de idade, correspondente a uma mulher jovem. Encontrada nos anos 1970 em Minas Gerais, Luzia nos foi espelho. Seu rosto reconstituído por estudiosos e pesquisadores nos colocou mais perto de nossas origens. Vê-la, novamente, serve para nos lembrar que se “evoluímos” muito Luzia também. Te devemos muitas desculpas.

 

Luzia, certamente, você nunca poderia imaginar o grau de perversidade e a falta de juízo que seus descendentes poderiam desenvolver. Chegamos à lua, mas não sabemos, definitivamente, como fazer para viver e conviver na Terra sem destruir. Desculpe, Luzia, por termos destruído o que 12 mil anos não haviam conseguido realizar.

 

Desculpe! Se te serve de consolo ou de vergonha, nos matamos assim todos os dias, nos ateamos fogo todos os dias, em nossos corpos e nossas almas. E assim queremos seguir fazendo. Atirando fogo, atirando balas de fogo pelo ar. Gostamos muito de fazer isso com as mulheres. Desculpe, Luzia, desculpe. Mas os nossos dias têm sido assim.

 

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp.

 

Acesse: JJ/Principal/Opnião/Margareth Arilha: Mulheres que viram cinzas.

 

 

 

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